Santa Rotina

Ter um ritmo de trabalho vai deixar você liberado para ser mais criativo e lidar melhor com os imprevistos da agenda.

Revista Você S/A – por Márcia Rocha

“Não tenho tempo.” É o que o consultor Paulo Kretly ouve da maior parte dos executivos quando pergunta por que não planejam seu dia. “As pessoas gastam mais tempo apagando incêndios do que se dedicando a questões que ainda não são urgentes porque há tempo para fazê-las”, diz Paulo, ao referir-se aos mais de 6 milhões de executivos que passaram pelos treinamentos de gerenciamento do tempo, oferecidos desde 2002 nos institutos Franklin Covey em vários países. Fazer todo dia tudo igual é mais inteligente – e libertador – do que parece. “Já pensou ter que inventar sua semana toda seegunda-feira?”, diz o psiquiatra Paulo Gaudêncio, do Instituto Paulo Gaudêncio, de São Paulo.

• Processo dinâmico

Há coisas que são previsíveis, como reuniões de segunda para verificar o andamento do projeto ou a atualização quinzenal da planilha de custos. Se é assim, por que você deixa tudo para a última hora? Resposta: porque está pensando só na tarefa, sem considerar o que ela representa no contexto. “A rotina tem que ser um meio para você conseguir o que deseja, e não um fim”, diz o consultor Rubens Gimael, sócio-diretor da NeoConsulting, empresa paulistana de aconselhamento profissional. Para fazer sentido, a rotina tem de ser um processo dinâmico, que, além de atender a seus anseios, deve estar alinhada com as demandas externas. Se você estiver dirigindo e for entrar à direita, vai ligar a seta – é uma rotina. Agora, faz sentido repetir o gesto se estiver sozinho na garagem do prédio? O exemplo é banal, mas ilustra o que ocorre em situações mais complexas. Se o cenário muda, a rotina tem de mudar junto.

Foi o que fez o engenheiro paulistano Carlos Eduardo Estonlho, de 41 anos, em fevereiro do ano passado, quando deixou para trás 14 anos de carreira como executivo em uma multinacional para se tornar um consultor especializado em coaching, planejamento e logística. E ainda se mudou de São Paulo para Campinas. “Eu tinha um dia-a-dia mais estruturado, mais tangível”, diz. Para ele, quem atua por conta própria tem de ser muito organizado. “Senão, fica à mercê das circunstâncias e das pessoas e trabalha mais”, afirma. Carlos adota alguns pontos fixos na agenda para usar como referência. Isso inclui o horário da academia e os momentos para pensar sobre o trabalho. “Vou ao escritório todo dia, mesmo quando não tenho nenhum cliente para atender”, diz. Sua rotina varia muito durante a semana – tudo depende do que ele precisa fazer.

Se você quiser sair da esfera do cotidiano e pensar na rotina como algo mais transcendente, vai ver que ela tem a ver com ritmo. “Tudo é regido por ritmos dentro e fora de você – os batimentos cardíacos, o dia e a noite, as estações do ano”, diz o consultor Jair Moggi, diretor da Adigo Consultores e fundador do Instituto EcoSocial, que tem como foco a antroposofia, ciência espiritualista criada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner. A sua rotina é o seu ritmo e deve estar alinhada à rotina da empresa, que se alinha ao ritmo do mercado, e assim por diante. Agora, que não se confunda rotina com rigidez de agenda. É preciso acomodar os imprevistos do dia-a-dia. “Quem é organizado lida melhor com as variáveis, porque já controlou o que podia ser controlado”, diz Paulo Kretly. Se você já encontrou um ritmo que faça sentido para você e para a empresa, quem sabe já pode até se dar ao luxo de negociar com o chefe o término do expediente mais cedo toda sexta-feira.

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