Monthly Archive for August, 2009

Santa Rotina

Administração do Tempo

Ter um ritmo de trabalho vai deixar você liberado para ser mais criativo e lidar melhor com os imprevistos da agenda.

Revista Você S/A – por Márcia Rocha

“Não tenho tempo.” É o que o consultor Paulo Kretly ouve da maior parte dos executivos quando pergunta por que não planejam seu dia. “As pessoas gastam mais tempo apagando incêndios do que se dedicando a questões que ainda não são urgentes porque há tempo para fazê-las”, diz Paulo, ao referir-se aos mais de 6 milhões de executivos que passaram pelos treinamentos de gerenciamento do tempo, oferecidos desde 2002 nos institutos Franklin Covey em vários países. Fazer todo dia tudo igual é mais inteligente – e libertador – do que parece. “Já pensou ter que inventar sua semana toda seegunda-feira?”, diz o psiquiatra Paulo Gaudêncio, do Instituto Paulo Gaudêncio, de São Paulo.

• Processo dinâmico

Há coisas que são previsíveis, como reuniões de segunda para verificar o andamento do projeto ou a atualização quinzenal da planilha de custos. Se é assim, por que você deixa tudo para a última hora? Resposta: porque está pensando só na tarefa, sem considerar o que ela representa no contexto. “A rotina tem que ser um meio para você conseguir o que deseja, e não um fim”, diz o consultor Rubens Gimael, sócio-diretor da NeoConsulting, empresa paulistana de aconselhamento profissional. Para fazer sentido, a rotina tem de ser um processo dinâmico, que, além de atender a seus anseios, deve estar alinhada com as demandas externas. Se você estiver dirigindo e for entrar à direita, vai ligar a seta – é uma rotina. Agora, faz sentido repetir o gesto se estiver sozinho na garagem do prédio? O exemplo é banal, mas ilustra o que ocorre em situações mais complexas. Se o cenário muda, a rotina tem de mudar junto.

Foi o que fez o engenheiro paulistano Carlos Eduardo Estonlho, de 41 anos, em fevereiro do ano passado, quando deixou para trás 14 anos de carreira como executivo em uma multinacional para se tornar um consultor especializado em coaching, planejamento e logística. E ainda se mudou de São Paulo para Campinas. “Eu tinha um dia-a-dia mais estruturado, mais tangível”, diz. Para ele, quem atua por conta própria tem de ser muito organizado. “Senão, fica à mercê das circunstâncias e das pessoas e trabalha mais”, afirma. Carlos adota alguns pontos fixos na agenda para usar como referência. Isso inclui o horário da academia e os momentos para pensar sobre o trabalho. “Vou ao escritório todo dia, mesmo quando não tenho nenhum cliente para atender”, diz. Sua rotina varia muito durante a semana – tudo depende do que ele precisa fazer.

Se você quiser sair da esfera do cotidiano e pensar na rotina como algo mais transcendente, vai ver que ela tem a ver com ritmo. “Tudo é regido por ritmos dentro e fora de você – os batimentos cardíacos, o dia e a noite, as estações do ano”, diz o consultor Jair Moggi, diretor da Adigo Consultores e fundador do Instituto EcoSocial, que tem como foco a antroposofia, ciência espiritualista criada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner. A sua rotina é o seu ritmo e deve estar alinhada à rotina da empresa, que se alinha ao ritmo do mercado, e assim por diante. Agora, que não se confunda rotina com rigidez de agenda. É preciso acomodar os imprevistos do dia-a-dia. “Quem é organizado lida melhor com as variáveis, porque já controlou o que podia ser controlado”, diz Paulo Kretly. Se você já encontrou um ritmo que faça sentido para você e para a empresa, quem sabe já pode até se dar ao luxo de negociar com o chefe o término do expediente mais cedo toda sexta-feira.

Você Precisa de Mais Vitaminas?

Administração do Tempo

Por que pessoas saudáveis estão complementando a dieta com nutrientes vendidos em farmácia.

Revista Época – por Francine Lima

Nos últimos quatro anos o brasileiro investiu mais de R$3 bilhões em suplementos de vitaminas e minerais, segundo dados da IMS Health, uma consultaria do ramo farmacêutico. Só em 2008, foram vendidos quase 52 milhões de embalagens de vitaminas na forma de cápsulas e comprimidos. Boa parte desses produtos sai da farmácia sem receita, mas profissionais de saúde também têm receitado o uso de suplementos. Segundo a Associação Brasileira de Nutrição (Asbran), a prescrição de suplementos de vitaminas, minerais e compostos bioativos pelos nutricionistas aumentou consideravelmente nos últimos anos. Parece que comer bem já não basta.

A meta principal dos nutricionistas sempre foi uma dieta adequada, com variedade de vegetais e grãos integrais, porções moderadas de carnes e pequenas quantidades de gorduras saturadas e açúcares. Mas essa dieta ideal pode esbarrar em obstáculos difíceis de transpor. Quem não tolera leite e seus derivados precisa recorrer a fontes alternativas de cálcio. Couve e brócolis são boas fontes desse mineral, mas insuficientes para suprir a necessidade diária de cálcio de uma pessoa. Seria preciso comer 20 folhas de couve por dia para alcançar os 1.000 miligramas de cálcio recomendados – algo que provavelmente atrapalharia a ingestão de outros alimentos. Resultado: o cálcio, que tem participação importante na prevenção da osteoporose, lidera a venda de suplementos nos últimos cinco anos, segundo a pesquisa da IMS Health. Faz sentido recorrer a vitaminas industrializadas para compensar a alimentação deficiente? Depende. Se a ideia é substituir com pílulas uma dieta adequada e uma vida saudável, é óbvio que não. Se as vitaminas são um auxílio para atingir o equilíbrio nutricional – para melhorar a disposição e prevenir doenças -, a resposta é menos óbvia.

Um dos motivos para a rendição às cápsulas seria a piora nos hábitos alimentares da população. Cresceu o uso de produtos industrializados – salgados, lasanha congelada, salsichas, presuntos e pães brancos – em detrimento de alimentos como arroz, feijão, verduras, carne fresca e grãos, que antes eram comprados na feira e preparados em casa. “Os suplementos alimentares promovem saúde quando o indivíduo não consegue se alimentar como precisa”, diz Marina Poletti Romano, nutricionista da Asbran. O hábito alimentar inadequado mantido por muito tempo pode causar deficiência nutricional, que, segundo a nutricionista, leva muito tempo para ser corrigida somente pela dieta. O nutriente é visto como solução mais rápida.

Mesmo quando a pessoa parece saudável, a falta de nutrientes em seu corpo pode ser prenúncio de problemas de saúde futuros. “Muitos pacientes estão potencialmente doentes”, diz a nutricionista funcional e farmacêutica Lucyanna Kalluf, de São Paulo. Para prevenir doenças como diabetes e osteoporose, Lucyanna receita vitaminas, minerais e fitoterápicos. Melhor que usar medicamentos depois, diz ela.

Foi por medo do futuro que a coordenadora de vendas Sonia Marques começou a tomar suplementos. Ao ouvir da nutricionista, em outubro passado, que sua língua estava com cor de gente morta, convenceu-se de que não tinha tempo a perder. Até então, aos 45 anos, não imaginava que os 12 quilos a mais, a prisão de ventre, o inchaço nas pernas, as dores na coluna, as espinhas no rosto, a falta de libido e o cansaço crônico fossem sinais de que ela corria o risco de sofrer um infarto antes dos 47. Após exames de sangue e urina com dosagens de nutrientes e outras substâncias – que indicaram colesterol alto, glicemia alterada e fígado fragilizado -, a nutricionista propôs uma mudança radical na alimentação de Sonia. Ela também teria de começar a se exercitar e tomar uma lista de suplementos nutricionais que incluía ferro, magnésio, colágeno e óleo de peixe. Numa única compra de cápsulas manipuladas, Sonia gastou R$ 800,00. Achou caro, mas gostou do resultado: “Perdi 10 quilos em oito meses e estou bem mais disposta. Nunca fui tão feliz”.

As falhas na alimentação não são a única justificativa apresentada pelos profissionais para prescrever suplementos. A baixa exposição ao sol, as horas insuficientes de sono, o sedentarismo, o uso indiscriminado de certos medicamentos e diversas formas de restrição alimentar – hábitos ligados ao estilo de vida – são também acusados de prejudicar a nutrição. A própria composição dos alimentos encontrados na natureza está sendo posta em dúvida pelos nutricionistas. “Deveríamos conseguir todos os nutrientes por meio de alimentos, mas não é isso que acontece. Não podemos assegurar que os nutrientes que deveriam estar contidos numa cenoura vão estar presentes em todas as cenouras”, afirma a nutricionista Mariana Klopfer, da Nutricius.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo em parceria com a Faculdade de Saúde Pública da USP em 2007 mostrou que a dieta média do brasileiro fornecia três vezes menos cálcio e seis vezes menos vitamina D que o recomendado. Outra revelação foi que apenas 20% dos entrevistados com mais de 40 anos consumiam o bastante em fontes de magnésio. Os resultados da pesquisa, feita com 2.420 pessoas em todas as regiões do Brasil e de diversas classes sociais, serviram para a Wyeth, laboratório farmacêutico que patrocinou a pesquisa, lançar em 2009 um suplemento de vitaminas e minerais de acordo com as necessidades dos brasileiros. “Os polivitamínicos são a categoria de suplementos que mais cresce”, afirma Claudio Santos, diretor médico da Wyeth Brasil. ”A procura por suplementos de cálcio e vitamina D também tem aumentado, especialmente por mulheres na menopausa e com risco de desenvolver osteoporose.”

Usar cápsulas nutritivas para corrigir falhas na alimentação ainda é decisão polêmica. O betacaroteno, substância que o organismo transforma em vitamina A, é um exemplo. Ele é encontrado em alimentos de cor alaranjada, como tomate e cenoura, e tem ação benéfica comprovada contra diversos tipos de câncer, especialmente quando esses alimentos são consumidos cozidos. Mas suplementos de betacaroteno não produzem o mesmo resultado. Uma hipótese dos pesquisadores é que o benefício do tomate venha não apenas do betacaroteno, mas de um conjunto de substâncias presentes no alimento. Nesse caso, é melhor comer tomates que tomar suplementos de betacaroteno. Mas há situações em que os suplementos parecem funcionar. Segundo o endocrinologista Allfredo Halpern, do Hospital das Clínicas, em São Paulo, o suplemento de vitamina D é confiável e aparece nos estudos com melhor resultado. Bastariam, porém, 20 minutos diários de exposição dos braços e das mãos ao sol de verão do fim da manhã para ter o suficiente em vitamina D.

Apesar da oferta de vitaminas em cápsulas, os médicos preferem corrigir carências nutricionais pela reprogramação alimentar. A Associação Dietética Americana preconiza, num documento de 2005, que “a melhor estratégia nutricional para promover saúde pleena e reduzir o risco de doença crônica é escolher uma grande variedade de alimentos”. O médico nutrólogo Carlos Alberto Werutski segue essa linha há 30 anos: “Todo adulto que faz uma alimentação monótona tem mais chance de ter carências nutricionais. A primeira coisa em que eu mexo é a variedade. A suplementação é inndicada para os casos de risco”.

Vá somando, porém, tudo o que você tem de fazer para cumprir as tabelas de recomendação de nutrientes, e a vida pode ficar bem difícil. A jornalista americana Jennifer Huget fez o teste, em sua coluna no The Washington Post. Desafiou uma nutricionista a estabelecer uma dieta que cumprisse à risca as recomendações diárias das autoridades de saúde para uma hipotética mulher de 35 anos que se exercitava três vezes por semana. Sua única restrição era não passar das 1.800 calorias, para a paciente não engordar. A nutricionista penou. Para atingir a quantidade de ferro, por exemplo, sugeriu alimentos fortificados. Mas eles elevavam demais a taxa de sódio do corpo. Após reiteradas tentativas, a nutricionista admitiu sua derrota: não connseguiria fechar a conta sem suplementos.

Nutricionistas brasileiros apontam uma “pegadinha” no teste da jornalista. As recomendações de autoridades de saúde, tanto nos Estados Unidos como aqui, são uma média. Embora a tabela se refira a proporções diárias, elas não precisam ser atingidas a cada dia. Você pode compensar um exagero de ontem com uma contenção hoje, e vice-versa. A segunda ressalva dos especialistas é quanto ao total de calorias. Quem aumenta a quantidade de exercícios – e, portanto, seu gasto calórico – pode comer mais.

Não que isso resolva a equação. Há nutricionistas que recomendam vitaminas até para quem tem uma rotina pesada de exercícios.

É o caso de Paulo Ciari, um advogado de 39 anos que pratica triatlo. Paulo é magro e gasta muita energia. Para mandar embora o desânimo, o cansaço e a insônia, sua nutricionista recomendou mudanças: que ele comesse mais vezes ao dia, diminuísse a quantidade de gordura na dieta, equilibrasse a proteína, aumentasse a quantidade de carboidratos e incluísse entre as refeições suplementos manipulados de vitaminas e minerais, com os quais Pauulo gasta cerca de R$ 200 por mês. “Pago meus suplementos com gosto, porque estou vendo o resultado”, diz ele.

O uso seguro de suplementos depende de acompanhamento especializado. O médico ou o nutricionista cruzam os hábitos alimentares relatados pelo paciente com os exames laboratoriais para verificar em que medida cada tipo de nutriente está sendo absorvido no organismo. “Uma deficiência nutricional pode ser sinal de que a pessoa está comendo de menos ou perdendo demais”, diz o médico nutrólogo Eric Slywitch, especialista em dietas vegetarianas. Se na dieta há fartura de nutrientes e no sangue há carências, pode ser que a forma como os alimentos estão sendo consumidos seja desfavorável a sua absorção. Quem come carne com queijo na mesma refeição, por exemplo, talvez não esteja absorvendo bem o ferro da carne. O ferro e o cálcio presente no queijo são nutrientes “adversários”. Na presença de cálcio em grande quantidade, a absorção do ferro diminui. O mesmo acontece com o uso de suplementos de ferro, que reduz a absorção do zinco ingerido na dieta.

Embora as cápsulas de vitaminas e minerais possam parecer inofensivas por estarem do lado de cá do balcão da farmácia, é imprudente usá-las inadvertidamente. Além de resultar num desperdício de dinheiro, os excessos podem ser tóxicos. Numa pesquisa realizada com consumidores de suplementos nutricionais nos Estaados Unidos, onde esse hábito é vastamente difundido, 4% dos entrevistados relataram ter experimentado efeitos adversos com o uso desses produtos. No Brasil, a automedicação com vitaminas também é um hábito comum. Existe uma tabela de limites seguros (UL) para a ingestão de cada nutriente, mas ela não costuma aparecer nas embalagens. O que aparece nos rótulos é a quantidade que a média populacional deveria ingerir de cada nutriente todos os dias. “Não é certo se automedicar”, diz a nutricionista e pesquisadora da USP Silvia Cozzolino. As pessoas podem até observar se as dosagens não ultrapasssam 100% do valor diário estabelecido, mas, sem considerar as quantidades que já obtêm dos alimentos, examinar o rótulo não adianta muita coisa. A saída é procurar ajuda profissional e sobretudo visitar a feira com mais frequência. Os melhores nutrientes ainda estão ali.