Monthly Archive for July, 2009

O Afeto, um Aliado Poderoso

Administração do Tempo

Um bom casamento e muitos amigos são a receita certa para criar os estímulos positivos que, segundo pesquisas, contribuem para a longevidade.

Revista Veja – por Ermano D´Almeida

Estudos recentes que associam o modo de vida à longevidade mostram que as relações afetivas são tão determinantes para ganhar anos a mais no calendário quanto os cuidados com a saúde. os casados, desde que mantenham uma relação harmoniosa com o cônjuge, vivem mais que os solteiros. Quem tem um círculo de amizades grande e atividade social intensa leva vantagem sobre os solitários. A explicação para isso está nos estímulos positivos que a pessoa recebe nos relacionamentos. ” a sensção de bem-estar e segurança que advém da boa convivência reforça o sistema imunológico”, diz o geriatra renato Maria Guimarães, de Brasília, presidente da Associação Internacional de Gerontologia e Geriatria. uma pesquisa recente da Universidade Flinders, em Adelaide, Austrália, feita com idosos, mostrou que aqueles com fortes conexões sociais vivem mais do que os que preferem o isolamento. Um dos estudos mais completos sobre a influencia do casamento na longevidade, feito por médicos da Universidade da Califórnia, analisou dados de 66.000 pesssoas com idade entre 19 e 85 anos. “Em todas as faixas etárias, observou-se que aqueles com um relacionamento amoroso estável tinham mais chance de chegar a uma idade avançada”, disse a VEJA o geriatra Robert Kaplan, um dos autores do estudo.

O ator Tony Ramos e sua mulher, Lidiane, são protagonistas do tipo de casamento capaz de promover a longevidade. Em setembro eles vão comemorar, com um jantar e uma missa, suas bodas de rubi – o equivalente a quarenta anos de união. Ramos ainda presenteia a esposa com flores, deixa bilhetinhos carinhosos pela casa e, quando está gravando novelas, telefona pelo menos três vezes por dia para ela. “O amor acontece nas pequenas coisas, num toque, num carinho”, acredita o ator, que se define como um grande romântico.

No ano passado, cientistas da Universidade Harvard divulgaram os resultados de uma pesquisa feita ao longo de seis anos com um grupo de idosos cuja memória era testada periodicamente. O resultado mostrou que os mais integrados socialmente se saíam melhor nos testes. Foram usados no estudo três critérios para definir integração social: estado civil, trabalho voluntário e frequência do contato com a família e com vizinhos. “Expor-se às novidades e aos desafios proporcionados pelo relacionamento social estimula o cérebro e a vontade de viver”, explica o geriatra Fábio Nasri, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.

Foi em busca de novos estímulos que o engenheiro paulista Carlos Carrriel, aos 47 anos, decidiu prestar vestibular para a faculdade de direito. Formou-se no mês passado, aos 51 anos. Seu primeiro desafio na nova empreitada foi superar a diferennça de idade com relação aos colegas, que o chamavam de senhor e com quem não tinha assuntos em comum. Rompidos os primeiros obstáculos, acabou fazendo amigos. “Com o tempo, a vida vai ficando entediante e descobri que posso me apaixonar por novos assuntos”, ele conta. Entusiasmado com as novas amizades. Carriel decidiu se cuidar. Contratou uma personal trainer, consultou uma nutricionista e conseguiu perder 10 quilos. Neste mês, para comemorar a formatura, vai viajar para Machu Picchu – local que jamais havia cogitado visitar.

Atitudes positivas como as de Carrriel contribuem para uma vida mais longa e prazerosa.

Minutos Preciosos

Administração do Tempo

A escritora Rosiska Darcy de Oliveira propõe a reengenharia do tempo como saída para valorizar o trabalho sem deixar de lado os prazeres cotidianos.

Revista você S/A – por Juliana de Mari

Advogada de formação, jornalista por opção, escritora por prazer. A carioca Rosiska Darcy de Oliveira, de 63 anos, escolheu, profissionalmente, o que lhe faz sentido. Sacrificou a carreira em alguns momentos, sim, abriu mão de algumas posições, como a de representante do Brasil na comissão de mulheres da Organização dos Estados Americanos (OEA), mas ganhou em qualidade afetiva, em bem-estar. Ela pratica individualmente o que prega em seu livro Reengenharia do Tempo (Ed. Rocco) como um dos caminhos para tratar as angústias coletivas em relação às longas jornadas de trabalho e ao desequilíbrio que se abateu sobre
a vida privada. “É preciso resgatar o direito à felicidade”, diz ela. “Chega de hipotecar nossso tempo exclusivamente ao trabalho.” Ícone do movimento feminista, Rosiska foi exilada na época da ditadura, passou dez anos fora do país, estudou com Jean Piaget, um dos mais importantes psicólogos do século 20, e voltou ao Brasil empenhada em alertar mulheres (e homens) para a necessidade de discutir as relações de gênero além do ambiente doméstico. “Não falo sobre a divisão de tarefas entre homens e mulheres. A questão é complexa e exige nova articulação entre a vida privada e o mundo do trabalho.” Autora de sete livros, há sete anos ela fundou o Centro de Liderança da Mulher (Celim), que tem sede no Rio de Janeiro e atua por meio de fóruns itinerantes em todo o país. Ela afirma: “A reengenharia do tempo é uma questão política”. A seguir, você confere o que ela quer dizer com isso.

  • A sensação de falta de tempo é unânime. Como chegamos a essa situação?
  • No meu ponto de vista, a entrada das mulheres no mercado de trabalho e a falta de articulação entre a vida privada e a vida pública delas – e deles também – são os principais detonadores dessa crise. Temos aqui um problema da sociedade, que não passou recibo e não gerou alterações em sua estrutura capazes de suportar o impacto desse movimento feminino. Elas invadiram o mundo do trabalho, mas a vida privada continuou estruturada, em termos de emprego de tempo e de responsabilidades, corno se ainda vivessem como suas avós, como se nada tivesse acontecido. A vida, como está organizada hoje, não cabe em 24 horas. As demandas do universo privado foram desvalorizadas, de certa forma até pelas próprias mulheres, que tentaram resolver esse problema matemático criando um dia elástico. Depois, elas entraram em conflito com os companheiros, que, mesmo com elas fora de casa, continuaram no ritmo da jornada integral. É por isso que proponho a desocultação do privado e a consequente reengenharia do tempo.

  • O que é a reengenharia do tempo?
  • O trabalho, por mais prazer que dele se extraia, não pode ser o maior consumidor da vida das pessoas. Antes, ganhávamos a vida no trabalho.

    Hoje, é ele quem ganha a nossa vida. As pessoas estão colapsando – embora esse não seja um processo declarado. Jovens estão tendo infartos cada vez mais cedo; as crianças perderam o direito à brincadeira e com 5 anos já estão com a agenda lotada; os pais delegam a criação dos filhos a prestadores de serviços. Trabalhar demais nesse cenário tem sido apresentado como uma grande qualidade. Isso é uma insalubridade psíquica, é muito grave. Para corrigir essa absurda distorção é que proponho essa reengenharia do tempo, visando a lucros existenciais para as pessoas e uma relação saudável entre elas, as empresas e a administração pública. Tenho certeza de que é possível atuar por meio da variável tempo para resolver essa questão. É uma proposta que envolve medidas práticas da sociedade como um todo, desde a alteração dos horários do serviço público e das escolas até a maior flexibilização das jornadas nas empresas. Além disso, é necessário que haja uma verdadeira transformação de mentalidade nas relações entre homens e mulheres.

  • Isso está acontecendo em algum lugar?
  • Sim. Há países que já entenderam que a relação saudável das pessoas com a vida além do trabalho é muitíssimo importante para a performance profissional. Entenderam que a empresa não pode ser a razão de um descalabro na vida das pessoas. Em meu livro, apresento o resultado de uma pesquisa que venho realizando há mais de dez anos. Países como Itália, Holanda, Suécia e Dinamarca estão à frente dessas mudanças, com ganhos em qualidade de vida para a sociedade como um todo. Acredito que, no Brasil, atualmente, estamos chegando a um ponto de virada. Os quadros mais inteligentes das empresas não vão vender a vida a preço barato e pagar um preço tão alto em relação aos demais interesses pessoais.

  • Como essa angústia se manifesta para nós?
  • Há um mal-estar generalizado tanto em relação às exigências de reciclagem contínua quanto aos fracassos privados. Nenhum profissional consegue sobreviver hoje no mercado de trabalho com o que aprendeu na faculdade. Ou você se recicla ou desaparece. E é necessário tempo para essa jornada da formação. Também não há mais tempo para tratar das crises, seja um problema no casamento ou uma doença na família, nem issso existe. O que tem causado o rompimento do casamento hoje não é mais a gestão do dinheiro, por exemplo. É a briga pela gestão do tempo. Diante do cenário que se coloca atualmente, essa é uma questão impossível de ser ganha por qualquer pessoa, pois todas essas demandas não cabem em 24 horas.

  • Que tipo de de profissional consegue ter sucessso num cenário como esse?
  • O vencedor, na maior parte das vezes, é alguém sem vínculos, sem responsabilidades afetivas. Porque a maioria dos profissionais vai sofrer muito na tentativa de conciliação da carreira com a vida privada. Há uma dupla mensagem das empresas: seja e não seja, a origem das esquizofrenias. Elas querem o líder espiritualizado, mas não dão tempo para que ele simplesmente converse com sua equipe ou mesmo se reenergize com a família, com os amigos ou cultivando um hobby qualquer. Estimulam a qualidade de vida, mas esperam que o executivo esteja disponível sete dias por semana no celular. Os profissionais já não sabem mais a quem devem atender.

  • Qual é a sua definição para sucesso?
  • Hoje há uma grande confusão entre triunfo, a sensação de sucesso
    depois de uma tarefa realizada, e bem-estar. Um sentimento não exclui o outro, mas hoje é muito comum que o primeiro prevaleça em detrimento do segundo. Sucesso, para mim, é um sentimento interno, que inclui o reconhecimento dos outros, claro, mas principalmente o seu mesmo. Um tem que bater com o outro, senão você fica preso a uma espiral de expectativas que não fazem sentido e que minam a sua energia e a sua motivação rapidamente.

  • E a flexibilidade nas jornadas de trabalho?
  • É uma faca de dois gumes, dependendo do senntido que lhe é atribuído. Há um modelo chamado “tempo zero”. Em outras palavras, a falsa ilusão de flexibilidade. Se dão um celular para você e ele fica ligado o tempo todo, em função do tempo globalizado, isso é um tipo de escravidão moderna. Em vez de abrir espaços de liberdade, as novas tecnologias estão sendo usadas para acelerar o trabalho. É o modelo vigente nos Estados Unidos e na Inglaterra. Há outro modelo, no entanto, que está sendo debatido em alguns países da Europa, que visa à melhor ia da vida cotidiana. Lá as empresas já entenderam que os funcionários ficam mais bem dispostos para produzir na medida em que se aliviam dos problemas privados. Daí vem a flexibilidade nos horários, o teletrabalho e as licenças temporárias para repensar a carreira e a vida.

  • A idéia de que quem trabalha melhor é quem trabalha mais atrapalha o processo de resgate do tempo privado?
  • Isso não é verdade. É um erro de concepção, um desperdício. Quem trabalha melhor, no contexto atual, é quem tem as melhores idéias! Tempo é uma variável que não cabe mais nessa avaliação. A criatividade é o mais importante. Com tanta tecnologia à disposição, não é mais necessário que o profissional trabalhe oito horas por dia grudado à mesma cadeira. A grande oportunidade que os progressos tecnológicos trazem é a de uma ruptura de paradigma: a sociedade futura seria cada vez menos uma sociedade de “pleno emprego” e mais de “vida plena”. O tempo de trabalho liberado, portanto, não apareceria como uma perda de tempo nem como um desperdício de si mesmo.

  • Quais as competências mais importantes para um profissional lidar com as demandas crescentes do mercado de trabalho?
  • As competências, as habilidades e os dons de cada um são, cada vez mais, seu verdadeiro capital. Ter sucesso depende, em boa medida, da capacidade de aprender e reaprender. Numa sociedade em que o tempo se acelera e as distâncias se encurtam, o ato de aprender se torna uma atividade cotidiana permanente.

    Daí, a necessidade de que haja uma nova relação entre trabalho e vida privada. No leque de competências fundamentais, eu destacaria a abertura à inovação, a adaptabilidade à muudança e a capacidade de trabalhar em equipe, assim como a capacidade de agir por si mesmo, de se auto-organizar e de se abrir a novos relacionamentos e experiências.

  • Por onde começar a buscar um novo signifiicado para o trabalho e para a vida?
  • Comece por uma pergunta: “O que é que realmente me faz feliz?”. O estado de coisas atual, a sobrecarga de trabalho, o colapso da vida familiar só podem ser reconhecidos como problemas se recuperarmos a idéia da felicidade. Quase não se fala mais nisso, como se não fosse direito querer ser feliz, não estar estressado, ter uma vida equilibrada entre prazeres diversos, incluindo o que vem do trabalho. É preciso que o profissional queira recuperar o controle sobre a sua vida e repensar se ele quer continuar trabalhando para justificar um consumo que nem sabe se deseja ter. Não há uma receita; o que existe é um ponto de partida.

  • Qual o papel dos líderes nesse processo?
  • Um chefe atento percebe quando alguém da equipe tem problemas, quando está diferente. E deveria perceber, também, quando um grupo inteiro está embaralhado na questão do tempo, lutando contra o estresse. Esse é o momento em que os líderes podem fazer diferença: ajudar as pessoas a resolver as questões que as incomodam, para que possam voltar a produzir o esperado.

  • Se é tão importante o profissional estar bem em casa para trabalhar meelhor, por que a maioria das empresas teima em continuar ignorando esse fato?
  • Há uma questão não dita: uma desconfiança básica em relação à responsabilidade dos funcionários. Isso vem de um tempo em que o trabalho era uma coisa realmente chata, obrigatória, um local onde as pessoas passavam o tempo apertando um mesmo parafuso durante a vida toda. Hoje isso não é mais verdade: muitas pessoas gostam bastante do que fazem e são absolutamente comprometidas com os resultados e os desafios que lhe são colocados. O problema atualmente é que essa entrega acontece em detrimento de outros prazeres.

  • O que é ter tempo para você?
  • Este é o momento da história da humanidade em que cada um de nós é obrigado a escrever, na sua vida, sua própria biografia. Não há mais modelos prontos: cada indivíduo precisa dar sentido às suas escolhas. Assumir o seu tempo, escapando das expectativas dos outros e elegendo o que é importante para você, é uma imensa responsabilidade. Mas acredito que perseguir o bem-estar é o caminho mais seguro para que as pessoas consigam triunfar na vida. E para isso é preciso ter tempo. Tempo, para mim, é sinônimo de liberdade.